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Como podemos tornar a nossa alimentação mais saudável e sustentável?

A produção de alimentos de origem animal é responsável pelo uso superior de recursos naturais e por um maior impacto sobre a pegada ecológica, de carbono e hídrica face aos alimentos de origem vegetal. De entre os vários alimentos, o chocolate, a carne vermelha e os laticínios são os que requerem mais água para a sua produção e emitem mais gases com efeito de estufa. Desta forma, no nosso dia a dia, se incluirmos mais produtos de origem vegetal na nossa alimentação estamos a ter um impacto positivo no meio ambiente. Por este motivo, uma alimentação vegan pode causar menos impacto ambiental, no entanto não é por si só considera um tipo de alimentação sustentável, dado que a sustentabilidade alimentar não é apenas o reflexo do impacto ambiental, também depende de outros fatores como, por exemplo, a adequação nutricional, a cultura alimentar e a acessibilidade.

A Dieta Mediterrânica representa, também, uma das alternativas mais adequadas para modificar hábitos de consumo, de forma a promover uma alimentação mais saudável e sustentável. Constitui um padrão alimentar e de estilo de vida que defende o bem-estar do planeta, uma vez que promove a diversidade no consumo de alimentos, incentivando o consumo de alimentos locais e sazonais, e a utilização de técnicas culinárias saudáveis. Mais ainda, este padrão alimentar estimula a moderação no consumo alimentar, o que possibilita a redução do desperdício alimentar.

O processamento dos alimentos é, também, muito importante na escolha de produtos alimentares sustentáveis. Os produtos alimentares processados têm um maior impacto ambiental comparativamente aos produtos não processados, uma vez que são alimentos com custos ambientais mais elevados. Os fatores ambientais, como as emissões de gases com efeito de estufa e os custos em recursos e energia dos produtos processados, variam conforme o modo de conservação (congelação, refrigeração, sem cadeia de frio), o tempo de conservação, o número de embalagens, o tipo de embalagem, o acondicionamento no transporte e a distância entre o produtor e o consumidor.

Alimentos biológicos são alimentos sustentáveis?

Os produtos hortícolas e a fruta são os alimentos biológicos mais consumidos pelos portugueses. As frutas e hortícolas biológicas apresentam 20 a 40% mais antioxidantes do que as convencionais. São alimentos que apresentam mais nutrientes, por isso além do seu papel protetor do ambiente, nomeadamente pela redução da utilização de produtos químicos nos solos, são alimentos mais ricos nutricionalmente que estão aliados a uma melhor saúde para o consumidor. Mais ainda, estes alimentos podem ajudar a reduzir a exposição a bactérias resistentes a antibióticos.

Apesar de serem produtos mais frescos e nutricionalmente mais adequados, é necessário ter em atenção que um produto biológico não é necessariamente um produto sustentável. Os produtos alimentares biológicos podem não ser sustentáveis, porque um produto biológico pode ser produzido num local geográfico e ser levado para ser consumido noutro país, ou seja, não respeita a proximidade da zona geográfica tornando a cadeia de distribuição mais longa.

Desperdício alimentar

A ONU criou metas especificas relacionadas com o tema do desperdício alimentar, que irão contribuir para alcançar os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, nomeadamente o objetivo 12 – garantir padrões de consumo e de produção sustentáveis – e os objetivos relacionados com a redução da pobreza e da fome e a promoção da saúde. Apela-se à redução para metade do desperdício alimentar proveniente do retalho e das casas do consumidor.

Cerca de 1/3 dos alimentos produzidos não são consumidos, o que representa aproximadamente 1,3 biliões de toneladas de desperdício alimentar por ano. O desperdício alimentar é um problema global, com consequências graves em termos socias, económicos e ambientais. As perdas alimentares e o desperdício alimentar são responsáveis pela emissão global de 8% a 10% dos gases com efeito de estufa, uma vez que representam um gasto de recursos utilizados, como água e energia, necessários para a vida humana.

Apesar de existir desperdício alimentar nos vários setores alimentares, a maior parte do desperdício acontece nas casas dos indivíduos (cerca de 61% do desperdício alimentar mundial). Desta forma, é necessário refletir sobre a forma como compramos, armazenamos, preparamos e consumimos os alimentos. Podemos fazer mudanças simples no nosso dia-a-dia para tornarmos os nossos hábitos alimentares mais sustentáveis.

Algumas dicas parauma alimentação saudável e sustentável:

  • Preferir alimentos locais e da época; sendo muito importante o consumo de pescado nacional, conforme a época.
  • Consumir alimentos provenientes do comércio justo.
  • Realizar uma lista de compras e adquirir apenas os alimentos que serão consumidos.
    O planeamento antecipado das refeições diárias permite uma gestão mais eficiente do dia alimentar, dos recursos utilizados e do orçamento familiar.
  • Ocupar 3/4 do prato com alimentos de origem vegetal; e assim, limitar 1/4 do prato para os alimentos de origem animal.
  • Limitar o consumo de carne vermelha e processada.
  • Aumentar o consumo diário de leguminosas.
  • Servir as porções de acordo com as recomendações da Roda da Alimentação Mediterrânica e em conformidade com as necessidades energéticas e nutricionais de cada indivíduo.
  • Reduzir o desperdício na preparação e confeção dos alimentos, por exemplo, reaproveitar as sobras de outras refeições, reutilizar ou reciclar embalagens utilizadas, minimizar o embalamento e adquirir os alimentos avulso.
  • Estar atento à data de validade dos produtos e acondicionar nas condições adequadas.
    Consumir em primeiro lugar os alimentos mais perecíveis.
  • Fazer uma horta ou um canteiro aromático.
  • Fazer compostagem dos resíduos orgânicos e utilizar como fertilizante.

Sustentabilidade Alimentar – porque é necessário um sistema alimentar sustentável?

Com a evidência científica crescente nos últimos anos, os indivíduos ganharam maior consciência sobre o papel fundamental da alimentação na saúde. No entanto, muitos desconhecem o impacto que a produção e o consumo de alimentos tem nos recursos mundiais. Para além dos automóveis que conduzimos e da energia que utilizamos para aquecer as nossas casas, os alimentos que produzimos e consumimos têm um impacto significativo no ambiente através, por exemplo, das emissões de gases com efeito de estufa, da utilização da terra e dos recursos hídricos, da poluição e do impacto dos produtos químicos, como herbicidas e pesticidas. Uma alimentação sustentável e os alimentos sustentáveis referem-se aos alimentos que podem ser produzidos de forma que não seja comprometida a capacidade das gerações futuras de produzir alimentos com igual qualidade.

O que é a sustentabilidade e uma alimentação sustentável?

A Organização das Nações Unidas (ONU) para Alimentação e Agricultura define sustentabilidade como as práticas que permitem garantir os direitos do homem, satisfazendo as necessidades presentes e futuras, sem causar danos irreversíveis no ecossistema e sem comprometer as gerações futuras. O conceito de sustentabilidade é um conceito multidimensional que engloba a integridade ambiental, o bem-estar social, a resiliência económica e a boa governação.

Desta forma, uma alimentação sustentável consiste numa alimentação de baixo impacto ambiental, que contribui para a segurança alimentar e nutricional da população, assim como para o seu estado de saúde, tanto no presente como no futuro. Uma alimentação sustentável protege e respeita a biodiversidade e o ecossistema, permitindo otimizar os recursos naturais e humanos. Para além disso, trata-se de uma alimentação culturalmente aceite, nutricionalmente adequada, acessível pela população, segura e economicamente justa.

Os alimentos sustentáveis devem ser produzidos com recurso a métodos de produção que respeitem o bem-estar do ambiente, dos animais, dos produtores e dos consumidores. Não devem ser alimentos processados, de modo a minimizar a quantidade de recursos utilizados. Desta forma, devem ser locais – ou seja, alimentos que são produzidos na proximidade, tendo uma cadeia de distribuição curta – e sazonais – ou seja, alimentos frescos, que se encontram disponíveis localmente e em condições de maturação adequadas para consumo. São alimentos com um custo económico e ambiental mais baixo comparativamente aos alimentos fora da época, nomeadamente porque utilizam menos cadeiras de frio e menos conservantes. Adicionalmente, podem apresentar melhores características organoléticas (sabor, odor e cor) e nutricionais.

Quais são os indicadores ambientais?

A pegada ecológica, hídrica (água) e de carbono são utilizadas como uma estimativa do impacto que o estilo de vida atual exerce sobre o planeta.

Pegada ecológica: mede a superfície de terra, biologicamente produtiva, e a água necessária para substituir os recursos utilizados e absorver os resíduos produzidos em relação à capacidade da Terra de regenerar os recursos naturais. A produção alimentar utiliza cerca de 40% da superfície da terra biologicamente produtiva.
Pegada de carbono: calcula a emissão de gases com efeito de estufa, durante o ciclo de vida do alimento (medida em gramas de C02). Entre 22 e 35% da pegada ecológica e emissões de gases com efeito de estufa são gerados pela produção e consumo de alimentos, e cerca de 15% destas emissões dizem respeito ao setor pecuário.
Pegada hídrica: mede a quantidade de água doce, em L ou m3, disponível. Também corresponde à quantidade de água utilizada para a produção dos alimentos e matérias-primas. A produção alimentar utiliza cerca de 70% do total de água doce.

Porque é que uma alimentação sustentável é importante?

Hoje em dia, mais de três biliões de pessoas sofrem de desnutrição e grande parte da população mundial tem maus hábitos alimentares, ou seja, de baixa qualidade nutricional. Ao mesmo tempo, a população mundial está a crescer rapidamente, e estima-se que haverá cerca de 10 biliões de pessoas no nosso planeta até 2050. Esta evolução implicará um aumento, cerca de 60%, na produção global de alimentos, e, consequentemente, uma maior pressão sobre os recursos naturais. Ao considerar o desenvolvimento alimentar sustentável, o objetivo é assegurar um futuro com alimentos suficientes e de igual acesso para todos, e de boa qualidade nutricional.

Em 2015, a ONU estabeleceu uma Agenda para o Desenvolvimento Sustentável até 2030. Foram definidos 17 objetivos, com o intuito de assegurar para as gerações futuras um planeta mais seguro e saudável. No âmbito da sustentabilidade alimentar, a ONU para a Alimentação e Agricultura apresentou cinco eixos principais para desenvolver o tema – melhorar a eficiência na utilização dos recursos; ter uma ação direta para conservar, proteger e melhorar os recursos naturais; proteger os meios rurais de subsistência e melhorar a equidade e o bem-estar social; melhorar a resiliência das pessoas, comunidades e ecossistemas, especialmente as alterações climáticas e a volatilidade dos mercados; e promover a boa governação para uma melhor sustentabilidade dos sistemas naturais e humanos.

O setor agrícola é dos principais responsáveis pelas alterações ambientais, onde se incluem as alterações climáticas, a desflorestação, a desertificação e as deteriorações nos ecossistemas marinhos, sendo a produção alimentar um dos maiores fatores que ameaça a extinção de espécies. Estas alterações ambientais podem levar a mudanças irreversíveis e catastróficas no sistema terrestre, que estão relacionadas com o aumento da mortalidade e morbilidade humana, conflitos mundiais e insegurança alimentar.

De facto, os nossos sistemas alimentares não são sustentáveis, e se queremos atingir os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável precisamos de agir rapidamente, nomeadamente refletindo e reconsiderando a forma como comemos e como os alimentos são produzidos. Alcançar um sistema alimentar saudável e sustentável é uma questão urgente que depende dos esforços e colaboração dos governos – são necessárias políticas nacionais e económicas para potenciar os produtos sustentáveis -, dos setores privado e público, e dos indivíduos – uma mudança no panorama da produção alimentar depende de uma mudança nos nossos hábitos alimentares.

Rotulagem nutricional simplificada

Rotulagem nutricional simplificada – eficiente na escolha de produtos alimentares saudáveis?

Quando vamos ao supermercado muitas dúvidas surgem sobre como escolher o melhor produto alimentar. A leitura do rótulo alimentar é de facto a forma mais completa de obter informação sobre a composição do alimento. No entanto, um estudo realizado na população portuguesa verificou que cerca de 40% da população não compreende a informação nutricional que se encontra presente nos rótulos alimentares. De facto, os cidadãos relatam que os rótulos alimentares são de difícil leitura e compreensão, devido ao formato e à complexidade da informação presente. Adicionalmente, a maioria descoloca-se aos supermercados, na maior parte das vezes, para a compra de uma grande quantidade de alimentos em pouco tempo, necessitando uma forma mais prática para a consulta da valorização nutricional dos produtos alimentares. Neste sentido, as ferramentas de rotulagem nutricional simplificada, colocadas na parte da frente das embalagens, podem auxiliar/orientar o consumidor na escolha de produtos alimentares mais equilibrados, adicionalmente à informação obrigatória por lei já presente nas embalagens.

Rotulagem nutricional simplificada ou rótulos alimentares?

Importa salientar que estas ferramentas, são voluntárias e não substituem a informação nutricional habitualmente presente nos rótulos alimentares. Servem de complemento aos rótulos alimentares, na parte da frente da embalagem, para facilitar a leitura e compreensão dos mesmos por parte do consumidor no momento da compra. De facto, são ferramentas importantes para auxiliar os consumidores na escolha de produtos alimentares no seu dia a dia, mas sabe-se que existem outros fatores que influenciam a compra dos consumidores como o preço, o sabor e a conveniência. Por outro lado, são ferramentas dinâmicas, necessitam de constante atualização e aperfeiçoamento, para que os produtos sejam classificados o mais próximo possível das recomendações alimentares e nutricionais.

Exemplos de ferramentas de rotulagem nutricional simplificada

Nutri-Score
O Nutri-Score é um sistema de avaliação de perfis nutricionais que se encontra na parte da frente das embalagens que classifica os produtos alimentares em cinco classes de acordo com o seu perfil nutricional. A classificação é baseada em cores e letras, desde o verde, com a letra A (privilegiar o consumo), ao vermelho com a letra E (limitar o consumo). O objetivo é facilitar a escolha de alimentos e bebidas mais equilibrados do ponto de vista nutricional, por parte do consumidor. Várias marcas já adotaram voluntariamente este sistema, como a Nestlé, Auchan e Danone.

Semáforo nutricional
Criado pela Food Standards Agency, uma autoridade do Reino Unido, o semáforo nutricional fornece informação sobre a quantidade de quatro nutrientes específicos: gordura, gordura saturada, açúcar e sal que compõem o alimento, através de um sistema de codificação interpretativo: baixo (cor verde; privilegiar o consumo), médio (cor amarela; moderar o consumo) ou alto (cor vermelha; limitar o consumo). Também fornece informação sobre o número de calorias e quilojoules, e sobre da porção tendo em conta a dose de referência dos respetivos nutrientes (em percentagem). Em Portugal, este sistema foi adotado pela primeira vez pelo Continente em 2008.

Warning Labels
Os warning labels, são símbolos em forma de sinal STOP, com mensagem de texto, aplicados na parte da frente da embalagem de produtos alimentares e bebidas, que fornecem informação sobre a quantidade excessiva de um nutriente individual, acima de um limite pré-estabelecido. A presença deste símbolo na embalagem indica que os produtos alimentares e bebidas excedem os limites de açúcar, sal, gordura saturada e/ou calorias. Em Portugal não encontramos, mas já são utilizados no Chile desde 2012, e em países como o Peru e a Venezuela também já utilizam.

Quais são as limitações associadas às ferramentas de rotulagem nutricional simplificada?

A diversidade de sistemas de rotulagem nutricional simplificada não é de todo a situação ideal. Em primeiro lugar, ter tantos esquemas diferentes torna mais difícil o controlo da precisão da informação transmitida em cada ferramenta aos consumidores. Em segundo lugar, não contribui para o estabelecimento de um ambiente que apoia e promove escolhas alimentares saudáveis, o qual é o objetivo principal da rotulagem nutricional simplificada. Por fim, dificulta a implementação de estudos para a avaliação do impacto de um determinado sistema na alfabetização do consumidor, nas escolhas alimentares e, a longo prazo, na saúde.

A discussão sobre qual poderá ser a melhor ferramenta constitui uma barreira para definir e implementar um sistema de rotulagem nutricional simplificada. Apesar dos avanços que têm sido feitos, falta ainda evidência científica sobre a facilidade de interpretação de algumas destas ferramentas e sobre o seu impacto nas escolhas alimentares e na compreensão de uma avaliação nutricional positiva (saudável) dos produtos alimentares. Para além disso, sabe-se que os ambientes sociais e físicos (tanto a nível individual como comunitário) em que as pessoas vivem têm uma influência importante na sua saúde e bem-estar. Por conseguinte, é também necessário avaliar o impacto da implementação destes sistemas de rotulagem nutricional simplificada nos diferentes grupos populacionais.

A utilização de ferramentas de rotulagem nutricional simplificada é uma medida de saúde pública que pode representar ganhos para a literacia e saúde da população. Os estudos que avaliam as diferentes ferramentas mostram uma probabilidade de 3 a 5 vezes superior de os consumidores escolherem produtos alimentares, quando os diferentes modelos de rotulagem (rotulagem simplificada e rótulo alimentar) estão presentes. Adicionalmente, tratam-se de sistemas que podem estimular a indústria na reformulação dos seus produtos, a fim de melhorar a sua composição nutricional.

No entanto, é necessário o aperfeiçoamento dos sistemas de classificação dos produtos alimentares, para que a informação nutricional seja obtida de forma adequada e o mais transparente possível. Isto é, para que a informação nutricional presente não induza o consumidor em erro, e, consequentemente, gere escolhas de produtos alimentares que possam comportar riscos associados à saúde. Na verdade, ainda não se sabe qual a ferramenta mais adequada para a escolha dos produtos alimentares, que garanta uma classificação adequada e segura do alimento para o consumidor.

Referências bibliográficas:

Craveiro C, Real H & Carvalho T. (2019, março). Um olhar sobre os sistemas de rotulagem alimentar Front of Pack. Porto: Associação Portuguesa de Nutrição.

Department of Health & Food Standards Agency. (2016, novembro). Guide to creating a front of pack nutrition label for pre-packed products sold through retail outlets. Reino Unido: Departamento de Saúde

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Julia C, Hercberg S & World Health Organization. Regional Office for Europe. (‎2017)‎. Development of a new front-of-pack nutrition label in France: the five-colour Nutri-Score. Public health panorama, 03 (‎04)‎, 712 – 725. World Health Organization. Regional Office for Europe.

Ministério da Saúde & Direção-Geral da Saúde. (2019). Nutr-HIA: improving nutrition labelling in Portugal health impact assessment – final report. Lisboa: Direção-Geral da Saúde.

Obesity Evidence Hub (2020, setembro17). Nutrient warning labels. Disponível em: https://www.obesityevidencehub.org.au/collections/prevention/nutrient-warning-labels.

Reyes M, Garmendia ML, Olivares S, Aqueveque C, Zacarías I & Corvalán C. (2019). Development of the Chilean front-of-package food warning label. BMC Public Health, 19(1), 906.

Santé Publique France (2021, setembro 13). Nutri-Score. Disponível em: https://www.santepubliquefrance.fr/determinants-de-sante/nutrition-et-activite-physique/articles/nutri-score.

“The Lisbon call to action” – Mundo digital e alimentação

O que é necessário fazer para proteger as crianças e adolescentes em relação aos ambientes obesogénicos digitais?

O papel dos ambientes alimentares na prevenção e controlo da obesidade tem sido amplamente reconhecido nos últimos anos. A utilização generalizada do mundo digital, que foi fortemente acelerada no contexto da pandemia COVID-19, tem vindo a sensibilizar para os novos ambientes online, em que os consumidores se envolvem com diferentes serviços, atividades e informações que podem influenciar as decisões sobre a aquisição, preparação e consumo de alimentos.

O mundo digital e a alimentação

No ambiente alimentar digital temos a presença de diferentes atividades/serviços, programas/aplicações e atores que influenciam o que as pessoas compram, e consequentemente, o que consomem. Em articulação temos a atuação do marketing digital, da venda online de alimentos e produtos alimentares, dos websites e das aplicações para os smartphones, bem como a presença dos influenciadores digitais das redes socias.

Estas tecnologias têm um impacto direto na compra de alimentos, sendo que tem sido notada uma crescente adesão ao comércio eletrónico de alimentos, seja através da compra nos websites dos hipermercados ou mesmo a partir de aplicações de entrega de refeições, que conferem uma maior acessibilidade a opções alimentares não saudáveis, e, também, contribuem para um aumento do sedentarismo.

Enquanto uma mensagem publicitária, em meios tradicionais, leva frequentemente entre quatro e sete exposições para alterar um comportamento alimentar, os meios digitais conseguem com que essa mensagem seja transmitida de uma forma mais rápida, sendo necessárias menos exposições para a alteração potencial de um comportamento. Para além disso, o marketing digital levanta preocupações relacionadas com a proteção de dados e privacidade, particularmente importante quando se fala da proteção de crianças e adolescentes.

Que ações podem ser tomadas para reduzir a exposição a ambientes obesogénicos no mundo digital?

A exposição ao marketing de alimentos não saudáveis continua a ser uma questão significativa, exigindo a proteção de todas as crianças por igual. A limitação do marketing de alimentos é uma estratégia preventiva essencial contra a obesidade infantil. Existe a necessidade de formular um conjunto de ações para várias entidades e públicos de forma a potenciar o acesso a uma alimentação mais saudável através do mundo digital, que se encontra cada vez mais presente na vida de todos.

“The Lisbon Call to Action”, que surgiu no âmbito da conferência “Future steps to tackle obesity: digital innovations into policy and actions”, trata-se de uma iniciativa da Presidência Portuguesa do Concelho da União Europeia, em particular do Ministério da Saúde, em conjunto com o Escritório Regional para a Europa da Organização Mundial de Saúde, para proteger as crianças e adolescentes em relação aos ambientes obesogénicos digitais, através da redução da exposição ao marketing digital de alimentos não saudáveis e ao potenciar as oportunidades do mundo digital para melhorar a acessibilidade e a viabilidade económica de alimentos saudáveis e ambientalmente sustentáveis. Faz-se um apelo à ação por parte de stakeholders decisivos, nomeadamente os governos, os pais e família, a escola e a comunidade escolar, os operadores económicos do setor alimentar e marketers, os criadores de conteúdo digital (influenciadores), os programadores, a academia, bem como a organizações da sociedade civil e não governamentais.

Relativamente aos pais e família:

  • Compreender e reconhecer os riscos para a saúde da exposição das crianças ao marketing de alimentos não saudáveis, desde a mais tenra idade.
  • Monitorizar e regular o acesso das crianças a ferramentas e dispositivos digitais. Os pais e as famílias devem encorajar a redução da exposição digital e online das crianças.

Escola e a comunidade escolar:

  • Apoiar crianças e adolescentes no desenvolvimento de competências relacionadas com a navegação através do ambiente digital, incluindo a capacidade de determinar a credibilidade das fontes online e da informação, bem como o desenvolvimento de competências sociais online.
  • Desenvolver e aumentar a literacia online e digital entre as crianças e os adolescentes.

Operadores económicos do setor alimentar e marketers:

  • Comprometer-se com uma comunicação responsável de marketing de alimentos e bebidas.
  • Comprometer-se a não fazer publicidade de produtos alimentares não saudáveis a crianças.

Criadores de conteúdo digital (influenciadores):

  • Reconhecer a responsabilidade social como influenciadores das preferências e comportamentos das crianças e adolescentes.
  • Comprometer-se a ter uma comunicação responsável sobre alimentação saudável, nutrição e saúde.
  • Estar empenhado em não fazer publicidade a produtos alimentares não saudáveis a crianças ou gerar conteúdos que promovem este tipo de consumo e padrões não saudáveis.

Apela-se à consciência social, e governamental, para esta realidade cada vez mais presente, no intuito de colocar em ação medidas preventivas de combate à obesidade infantil e para a promoção de uma alimentação mais saudável, equilibrada e sustentável, através do recurso às plataformas digitais da atualidade.

Marketing Digital e Alimentação

Será que o marketing digital influencia as escolhas alimentares das crianças e adolescentes?

Hoje em dia, as crianças e adolescentes, principalmente dos 8 aos 18 anos, utilizam diversos meios de comunicação social (muitas vezes simultaneamente), e passam um tempo considerável expostos a uma quantidade significativa de anúncios alimentares no mundo digital, destinados a diferentes audiências. Os estudos confirmam que a exposição ao marketing digital é responsável pela promoção de ambientes obesogénicos. O ambiente obesogénico tem uma influência substancial, com elevada disponibilidade e comercialização de produtos alimentares de baixo custo, ultra processados, densamente calóricos e altamente palatáveis.

O marketing alimentar contribui para o aumento das taxas de obesidade infantil?

A obesidade infantil é um grave problema de saúde pública que está diretamente relacionada com o aumento das taxas de morbilidade e mortalidade, e que acarreta grandes custos económicos e sociais a longo prazo. A nível mundial, a prevalência de excesso de peso em crianças e adolescentes quadruplicou entre 1975 e 2016, e particularmente na Região Europeia da Organização Mundial de Saúde, 1 em cada 3 crianças dos 6 aos 9 anos de idade vive com excesso de peso ou obesidade. A obesidade infantil aumenta o risco para o desenvolvimento de obesidade na idade adulta, e consequentemente para o aparecimento de doenças, tais como a diabetes, as doenças cardiovasculares, e algumas formas de cancro.

Nos últimos anos, tem sido reconhecido o papel dos ambientes alimentares na prevenção e controlo da obesidade. Os estudos têm apontado para fortes associações entre o aumento da publicidade a alimentos não saudáveis e as taxas de obesidade infantil. A maioria das crianças com menos de 6 anos não consegue distinguir entre os programas televisivos e a publicidade, ou seja, quando se passa da transmissão do programa para a publicidade. Por outro lado, crianças com menos de 8 anos não compreendem a intenção da publicidade. As crianças têm uma notável capacidade de recordar os conteúdos dos anúncios a que foram expostas. Tem sido demonstrado que apenas uma única exposição à publicidade de produtos alimentares não saudáveis afeta as preferências das crianças, e que é reforçada por exposições repetidas.

A publicidade dirigida a crianças tão jovens é, pela sua própria natureza, exploradora. Na verdade, o marketing dirigido a crianças infringe alguns dos direitos que estão presentes na Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas, nomeadamente os direitos fundamentais à saúde e alimentação, à educação e acesso à informação, e pode ainda infringir o direito de a criança estar livre de qualquer forma de exploração económica.

Quando online as crianças e adolescentes são expostos à comercialização digital de alimentos não saudáveis, especialmente álcool e alimentos ricos em açúcares livres, gordura saturada e/ou sal. Sabe-se que esta exposição influencia diretamente os hábitos alimentares das crianças e, como consequência, promove ambientes alimentares obesogénicos. Esta exposição pode ser o resultado de anúncios pagos, publicidade indireta (inclusão de mensagens publicitárias de forma subtil no conteúdo de programas de televisão, filmes, jogos, revistas, rádios, eventos, etc.), partilha de conteúdos ou por atividade dos influenciadores digitais.

Como é que o marketing digital afeta as preferências alimentares das crianças e adolescentes?

A televisão é uma das principais plataformas para a publicidade alimentar e a maior parte da investigação existente que analisa o marketing alimentar dirigido às crianças tem-se concentrado na publicidade tradicional nos meios de comunicação social. Os estudos apontam para uma maior promoção a alimentos pouco saudáveis, e muitas vezes são implementadas múltiplas técnicas de marketing persuasivas, estando associadas aos comportamentos alimentares das crianças. Contudo, recentemente, observou-se que a televisão já não é a principal plataforma escolhida entre as crianças, tendo sido ultrapassada por plataformas de visualização online e dispositivos móveis. Também foram introduzidos os “advergames”, ou seja, a utilização de jogos online, como ferramentas para divulgar e promover marcas, produtos e /ou organizações.

Sabe-se que a publicidade online combinada com a publicidade televisiva aplica uma maior influência no consumo alimentar das crianças e adolescentes. O marketing digital amplifica a publicidade nos meios de comunicação tradicionais, conseguindo maior atenção e memória da publicidade, maior consciência da marca e atitudes de marca mais positivas. Para além disso, os conteúdos partilhados pelos influenciadores digitais estão associados a um grande impacto nos hábitos alimentares das crianças.

As crianças e adolescentes necessitam de proteção contra a exposição ao marketing digital, uma vez que as suas capacidades cognitivas ainda se estão a desenvolver. Depois de terem adquirido defesas cognitivas semelhantes às dos adultos, podem ainda ser menos capazes de reconhecer as mensagens que estão implícitas nas comunicações de marketing. Mesmo que possam distinguir os conteúdos publicitários, podem ser suscetíveis aos seus efeitos persuasivos, uma vez que as plataformas digitais recolhem dados pessoais extensivos dos utilizadores da Internet para entregar publicidade comportamental, ou seja, elaboração de conteúdo publicitário, individualizado, para o consumidor, especificando com precisão as audiências e visando os mais vulneráveis.

Chocolate – qual será o chocolate mais saudável?

Não consegue resistir a um delicioso chocolate? Mas também ouviu dizer que nem todos são iguais… E a seguir vem a pergunta: como escolher o chocolate mais saudável?

Vamos saber um pouco mais sobre esta iguaria!

Quais os tipos de chocolate que encontramos?

Os vários tipos de chocolate resultam das diferentes concentrações de cacau que estão na sua composição.

Chocolate preto – o que tem mais cacau e menos açúcar. Podemos ainda dividir em: Chocolate preto amargo (se tiver acima de 70% de cacau) e Chocolate preto meio amargo (entre 50% e 70% de cacau)

Chocolate de leite – Tem menos cacau e mais açúcar (entre 36% e 46% de cacau)

Chocolate branco – Não tem cacau (tem manteiga de cacau) e muito mais açúcar

Mas afinal o que é o cacau?

O cacau é o fruto do cacaueiro e como já vimos, o principal constituinte do chocolate. Para a produção do chocolate utiliza-se a semente, que não é castanha e está envolta numa polpa branca. É preciso fermentar e secar estes grãos, até a polpa desaparecer, só depois é que são torrados, descascados e, por fim, triturados para se fazer o cacau em pó! Como sabemos, o cacau puro é muito amargo! Já percebeu porque é que a maioria do chocolate que encontramos é tão doce? Porque se não fosse a adição do açúcar não conseguiríamos consumir!

E existem alguns benefícios do seu consumo?

Apesar de ser um alimento muito calórico, uma vez que contém uma quantidade apreciável de gordura e açúcar, pode apresentar benefícios, associados ao seu teor de cacau e de polifenóis. Estes benefícios estão relacionados com a versão mais pura, com maior % de cacau, sendo, por isso, o chocolate preto amargo, com pelo menos 70% de cacau, o melhor a nível nutricional.

Ação estimulante – O cacau contém teobromina (da família da cafeína), que exerce um efeito estimulante no organismo, ajudando a despertar e a concentrar.

Ação antioxidante – Os grãos de cacau são ricos em flavonoides, que têm atividade antioxidante, protegendo as células das oxidações indesejáveis e que podem ajudar a promover a saúde, nomeadamente a saúde cardiovascular.

Dado que tem também leite na sua composição, fornece ainda vitaminas do complexo B como as B2 e B12 e minerais como o fósforo e o magnésio, importantes por exemplo para a formação e saúde de ossos e dentes.

O aminoácido triptofano, presente no chocolate, origina serotonina que é o neurotransmissor da felicidade, da sensação de prazer e bem-estar.

E qual quantidade diária considerada adequada?

Não existe uma quantidade diária recomendada. Contudo, podemos integrar o chocolate num padrão alimentar saudável e equilibrado e num estilo de vida ativo.

Habitualmente, encontramos algumas recomendações que vão entre 1 a 2 quadrados por dia, ou seja entre os 10 a 25g.

Desmistificando os mitos associados…

O chocolate vicia! Será? Neste caso a dupla da felicidade, ou seja as hormonas dopamina e serotonina, entra em ação! Após o consumo de chocolate existe uma sensação de prazer associada. Esta sensação é desencadeada pela libertação do neurotransmissor dopamina o que poderá associar-se à “necessidade” de consumo de chocolate. A juntar a isto temos o triptofano presente no cacau que contribui para a produção de serotonina, que também é uma hormona da felicidade. Este é um tipo de mecanismo que torna o organismo dependente de um constante reforço positivo, o que por sua vez desencadeia o mecanismo do vício.

O chocolate é afrodisíaco! Será? O cacau é rico em minerais como o zinco, magnésio e selénio. Está provado que o zinco contribui para uma fertilidade e reprodução normais e para a manutenção de níveis normais de testosterona no sangue. Por outro lado, o magnésio, ajuda ao normal funcionamento do sistema nervoso e da função psicológica e o selénio, contribui para a normal espermatogénese. Ora, talvez devido a estas propriedades nutricionais, o chocolate tenha sido, desde há muitos anos, associado à alimentação afrodisíaca.